Como funcionam os cães policiais

Não se sabe ao certo quando os cães começaram a ser domesticados, mas uma coisa é certa: os cães e as pessoas têm trabalhado juntos por milhares de anos. Os métodos modernos de treinamento fizeram com que os cães se tornassem parte integral da vida de muitas pessoas, não apenas como companheiros mas também como cães-guia, cães de busca e resgate e cães farejadores de bombas e drogas.


Oficial Daniel Smith e seu parceiro K-9, Breston, do Departamento de Polícia de Cheektowaga

Atualmente, as forças policiais em muitas das principais cidades usam cães para rastrear criminosos, farejar materiais ilegais, fazer buscas em edifícios, etc.

Neste artigo, vamos descobrir como um cão se torna um cão policial e também vamos conhecer algumas histórias sobre cães policiais em ação.

Cães na patrulha

Por que se usam cães policiais? Por um motivo muito importante: o olfato deles é quase 50 vezes mais sensível que o dos seres humanos. Um cão pode farejar criminosos, drogas, armas e bombas em situações em que um oficial humano levaria muito mais tempo fazer e com um risco também maior.

Devido a tantas qualidades, a SENASP (Secretaria Nacional de Segurança Pública) do Ministério da Justiça, está treinando cães para usá-los na segurança do Pan-americano de 2007 no Rio de Janeiro. Esses animais foram selecionados em 2006 e vêm de várias regiões do Brasil: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Rio de Janeiro entre outras.

Vários casos demonstram as habilidades desses cães. Em um caso, Breston, um pastor belga que trabalha com o Departamento de Polícia de Cheektowaga, em Cheektowaga, NY (um subúrbio de Buffalo), farejou facilmente um embarque de maconha em sacos plásticos lacrados, dentro de cestos lacrados com espuma selante, no interior de uma garagem fechada e cheia de objetos. Com seu faro aguçado, Breston livrou as ruas de US$ 3.400.000 em drogas.


A apreensão de aproximadamente 680 kg de maconha encontrados pelo K-9 Breston durante a verificação de rotina em um grande depósito

Além da sensibilidade, o olfato de um cão pode discernir um cheiro específico mesmo quando há dúzias de outros cheiros ao redor. Os traficantes de drogas poderiam tentar enganar os cães farejadores enrolando as drogas em toalhas ensopadas de perfume, mas ainda assim os cães encontrariam as drogas.


O nariz dos cães têm cerca de 200 milhões de células receptoras de cheiros. O nariz de um ser humano tem cerca de 5 milhões.

Entretanto, um cão policial também tem outras tarefas. O rosnado de um cão policial bem treinado pode fazer com que que muitos criminosos se entreguem ao se sentirem  intimidados. A mera presença de um cão policial pode evitar confrontos físicos.

Quando um conflito começa, os cães são mais rápidos e mais fortes que a maioria dos policiais, sendo capazes de pegar um suspeito fugindo e apertá-los com suas poderosas mandíbulas, prendendo-os até que outro oficial em serviço chegue. Por tudo isso, os cães acabaram ganhando um lugar definitivo nas forças policiais.

Prova disso foi o que ocorreu durante uma operação policial no Paraná, em que um rottweiler de ataque do 4º BPM - Apolo de 4 anos - efetuou a prisão de uma pessoa armada. O policial treinador solicitou que o suspeito parasse e não foi atendido, após dar um comando a Apolo, este imobilizou o suspeito.

História dos cães policiais

A força policial européia usava sabujos (cães farejadores) já no século XVIII. Apenas na Primeira Guerra Mundial, países como Bélgica e Alemanha formalizaram o processo de treinamento e começaram a usar os cães para tarefas específicas, como ficar de guarda. A prática continuou até a Segunda Guerra Mundial. Os soldados retornavam para casa trazendo notícias de que cães bem treinados estavam sendo usados pelos dois lados do combate. Logo, os programas K-9 foram iniciados em Londres e outras cidades européias. O uso de cães policiais não ganhou uma base de operações nos Estados Unidos até os anos 70. Atualmente, os cães policiais são reconhecidos como parte vital da força da lei e seu uso tem crescido rapidamente nos últimos anos.

O cão certo para o trabalho policial

Existe uma grande variedade de raças de cães, mas nem todas se adaptam ao trabalho policial. Provavelmente, não veremos cães policiais da raça Lhasa apso (em inglês). A maioria dos cães policiais é pastor alemão (em inglês), apesar de Labradores retrievers (em inglês) e pastores belgas serem usados às vezes, dependendo das tarefas específicas para as quais são necessários. As características de um cão policial bem-sucedido são inteligência, agressão, força e olfato apurado. A maioria dos cães policiais é formada por cães machos e freqüentemente não são castrados, para que mantenham sua agressividade natural. Essa agressividade é mantida sob controle através de treinamentos rigorosos.

Os departamentos de polícia obtêm os cães de fontes diversas, mas boa parte deles são doados. A cada dia que passa, os departamentos de polícia comprovam a importância do uso de cães educados e criados para o trabalho policial. Os cães importados da Europa têm várias vantagens sobre os cães de raças americanas. Na Europa, os padrões de procriação são muito rigorosos: os cães são avaliados de acordo com um conjunto de critérios e dão cria somente se cumprirem esses critérios. Alem disso, as agências de cães policiais na Europa são internacionalmente conhecidas. Antes de um cão ir para os Estados Unidos, provavelmente ele já passou por um treinamento rigoroso e recebeu uma certificação internacional. Breston, por exemplo, é da Holanda, onde se formou com honra na Associação Holandesa Real de Cães Policiais (em inglês).

No Brasil, os cães utilizados para atuarem em conjunto com os policiais são das raças, pastor alemão, pastor belga, labrador e english springer spaniel, que são treinados para farejar bombas e drogas e buscar e resgatar pessoas em escombros, se necessário.

A desvantagem em se usar cães europeus é o custo: US$ 8.500 em média para comprar e embarcar um cão da Europa para um departamento de polícia dos Estados Unidos. 

O cão policial e seu treinador juntos formam uma unidade K-9. Apenas os oficiais mais competentes são considerados para unidades K-9. Eles devem ter uma reputação exemplar, muitas prisões com condenação, uma personalidade sociável e energética e forte condicionamento físico. Um oficial K-9 geralmente trabalha cerca de 60 horas por semana. O pagamento é bom, mas a agenda não é fácil e não há como se retirar. Um oficial K-9 não pode decidir depois de um mês ou um ano de trabalho que não quer mais esse tipo de trabalho. A carreira de um cão policial geralmente dura cerca de seis anos, mas o treinador está nessa função por tempo indeterminado.


A ligação entre o oficial e seu cão é muito forte. Eles estão juntos 24 horas por dia.

A seguir, vamos dar uma olhada no treinamento do cão policial.

Treinamento básico

Todos os cães policiais devem se tornar peritos no treinamento básico de obediência. Eles devem obedecer aos comandos de seu treinador sem hesitação. Isso é o que mantém a agressividade inerente do cão sob controle e permite que o oficial controle quanta força o cão vai usar contra um suspeito.


Breston está sempre farejando drogas, mesmo quando não está conduzindo uma busca. Se ele alerta para um local específico, os oficiais podem obter um mandado de busca para encontrar as drogas.

Os cães da Europa geralmente recebem comando em seu idioma nativo (todos os comandos de Breston são em holandês). Muitas pessoas pensam que qualquer pessoa além do treinador pode acidentalmente dar a eles um comando "atacar" em inglês. Isso é um mito. A verdadeira razão é bem simples: os cães foram treinados com palavras de comando eespecíficas e é muito mais fácil para o oficial aprender algumas palavras em holandês ou alemão do que retreinar o cão com novos comandos.

Um cão policial também deve ter tido treinamento de resistência e agilidade. O cão deve ser capaz de pular paredes e escalar escadas. Cada cão é adaptado à vida da cidade, porque um cão nervoso ao redor de pessoas não será um bom cão policial.

Finalmente, cada cão recebe um treinamento especial. Muitos são treinados para procurar drogas, outros são farejadores de bomba ou armas. Cães policiais também podem rastrear pessoas desaparecidas ou suspeitos.

O treinamento que está ocorrendo no Rio de Janeiro, por exemplo, visa não só o Pan 2007. Segundo a SENASP, o treinamento quer deixar os cães aptos para atuarem nos diversos estados brasileiros, abrangendo toda a população. Esses animais trabalharão principalmente em portos, aeroportos e agências dos correios.

Na próxima seção, você vai aprender sobre o treinamento especializado para localizar drogas ilegais.

Treinamento para localização de drogas ilegais

As pessoas às vezes se perguntam se os cães farejam as drogas porque querem comê-las. Na verdade, os cães não têm nenhum interesse na droga. O que eles estão procurando, na verdade, é seu brinquedo favorito. O treinamento os leva a associar que o brinquedo tem cheiro de droga.


Breston descobriu um embarque de maconha em sacos de plástico lacrados, dentro de cestos lacrados com espuma selante, no interior de uma garagem fechada e cheia de objetos

O brinquedo mais usado é uma toalha branca. Os cães policiais adoram brincar de cabo-de-guerra com sua toalha favorita. Para começar o treinamento, o treinador simplesmente brinca com o cão e a toalha, que foi cuidadosamente lavada para que nenhum cheiro fique nela. Depois, um saco de maconha é enrolado na toalha. Depois de brincar um pouco, o cão começa a reconhecer o cheiro da maconha como o cheiro de seu brinquedo. O treinador então esconde a toalha com a droga em vários locais. Quando o cão fareja as drogas, ele cava e arranha tentando pegar seu brinquedo e logo aprende que, se a encontrar, será recompensado.

À medida em que o treinamento avança, drogas diferentes são colocadas na toalha, até que o cão seja capaz de farejar inúmeras substâncias ilegais. O mesmo método é usado para os cães detectores de bombas: vários produtos químicos usados para fabricar explosivos são colocados na toalha no lugar das drogas.

Alertas passivos x alertas agressivos

Quando um cão policial encontra o que está farejando, ele informa seu treinador dando um sinal de alerta. Os cães farejadores de drogas usam um alerta agressivo: cavam e passam a pata no local onde sentiram o cheiro da droga, tentando pegar o brinquedo que pensam estar ali.

Contudo, há algumas especialidades em que um alerta agressivo não é o mais adequado. Se um cão que estiver farejando uma bomba cavar e arranhar quando encontrá-la, o resultado pode ser desastroso. Nesses casos, um alerta passivo é o mais indicado.

Um bom exemplo de cães de alerta passivo são os beagles usados pelo Departamento Americano de Agricultura para farejar produtos não permitidos no país. A Brigada Beagle, como são carinhosamente conhecidos, fareja as bagagens das pessoas enquanto elas esperam nas filas da alfândega, nos aeroportos e nas fronteiras. Como ninguém quer um cão cavando seus pertences, os beagles USDA foram treinados para simplesmente sentarem quando sentirem cheiro de frutas ou legumes.

Um dia na vida de um cão policial

Cães policiais vivem com seus parceiros. Uma unidade K-9 é uma equipe que fica unida 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Em uma manhã comum, Breston e o oficial Smith acordam cedo e ajudam outras unidades K-9 a fazerem buscas de drogas em escolas. As unidades K-9 também conduzem buscas de drogas em empresas, a pedido dos proprietários.


Breston e o oficial Smith voltam para o utilitário
da Unidade K-9 para responder a um chamado

Como a maioria do trabalho policial, cada turno de oito horas engloba muita espera, seguida de curtos períodos de ação quando um chamado surge no rádio. Quando um chamado parece, a unidade K-9 entra em uma viatura policial com espaço próprio para o cão na parte de trás. No caso de Breston, ele anda em um utilitário, com um compartimento separado para ele e um para os suspeitos presos.

A maioria dos cães policiais é bem treinada para que possa rastrear pessoas viciadas em drogas. Eles aprendem a sentir o cheiro no chão, pela trilha de cheiro que a pessoa deixa, e no ar, por um rastro de cheiro que fica no ar quando uma pessoa está próxima. Cheirar o ar é importante, porque assim o cão pode sentir se um suspeito voltou e armou uma emboscada para o policial.

Depois do fim do turno de oito horas, é hora de voltar para casa para uma boa noite de sono. Como pode ver, é uma agenda apertada. A cada semana ou duas, a unidade K-9 passará oito horas em treinamento, ajudando a manter os cães em forma.

Eles são a atração

Na Expoagro de 2006 - Feira Agropecuária do Amazonas, os cães foram a atração: labradores, pastores alemão e belga, rottweillers e pit-bull demonstraram habilidades que empregam em missões policiais.
O cão “Thor”, da raça labrador, se destacou arrancando aplausos de um público de 2 mil pessoas por suas habilidades de farejador. Esse cão foi eleito o segundo melhor da categoria em todo o país.


Numa situação bem adversa, Anny e Dara, também foram atração nas buscas aos soterrados do desabamento das obras da Linha Amarela do Metrô, na Zona Oeste de São Paulo. As cadelas farejadoras da polícia de São Paulo indicaram aos bombeiros pontos de busca na cratera, o que auxiliou muito o trabalho do corpo de bombeiros.

Questões legais

Se um cão policial ferir alguém ou causar danos, o departamento de polícia pode ser responsabilizado. O mesmo pode ser dito em relação aos próprios policiais. O uso da força é justificado nos casos abaixo:

·       a gravidade do crime

·       se o suspeito for uma ameaça imediata para alguém

·       se o suspeito estiver tentando fugir ou resistir à prisão

O uso de força canina é justificado se um suspeito estiver armado, se ainda não tiver sido revistado pelos policiais ou se estiver fugindo e for suspeito de um crime grave. Um registro de treinamento do cão também pode ajudar a provar que ele usou força apenas se foi absolutamente necessário. É aí que o certificado de treinamento europeu, como o KNPV-I que Breston recebeu, pode ser valioso. "A primeira coisa que um advogado de defesa vai pedir é os registros de treinamento do cão", diz o oficial Smith. "Eu posso mostrar não apenas que o treinamento dele foi feito no país, mas que ele fez treinamento reconhecido internacionalmente e foi aprovado".


O alto nível de treinamento de Breston fornece uma prova contundente de que seu comportamento em muitas circunstâncias é adequado

O uso de cães policiais está crescendo à medida que os departamentos de polícia percebem que um cão bem treinado e seu treinador realmente reduzem certas desvantagens: cada vez que um suspeito foge ou luta contra os policiais, a perseguição e o conflito podem levar a ferimentos e a processos contra o departamento. O uso de uma unidade K-9 geralmente evita que um suspeito resista e pode concluir a questão sem que nunguém saia ferido.

Cães na linha de frente

Os cães policiais geralmente estão na linha de frente na luta contra os criminosos violentos. Por essa razão, muitos são equipados com coletes à prova de balas. Breston recebeu seu colete recentemente, graças a uma garota da região que queria juntar recursos para protegê-lo. Em três semanas, ela coletou dinheiro suficiente não apenas para Breston, mas para que cada cão nos três condados do Oeste do Estado de Nova York recebesse seu colete à prova de balas. O departamento de polícia teve de pedir ao público que parasse de enviar dinheiro.

Os cães policiais famosos

Poucos cães policiais ficaram famosos. O mais lendário cão policial de todos é provavelmente Rin Tin Tin, um pastor alemão treinado que foi deixado para trás na retirada das forças alemãs, em 1918. Um sargento americano o levou para os Estados Unidos, onde acabou estrelando 122 filmes e uma série de TV.


Rin Tin Tin talvez seja o cão policial mais famoso

Uma cadela policial se tornou famosa por ser única. Mattie, uma labrador retrivier preta, da Polícia do Estado de Connecticut, era treinada para farejar evidências de incêndio criminoso. Mattie poderia seguir pelas ruínas chamuscadas e perigosas de um incêndio e indicar poucas gotas de gasolina, apesar do forte cheiro do incêndio, do fogo e os policiais andando pelo local. Mattie podia identificar vários aceleradores químicos diferentes. Ela foi a primeira cadela de detecção de acelerador químico no país, e possivelmente do mundo, quando estava na ativa, em 1986.