Como funciona o PCC - Primeiro Comando da Capital

O PCC é hoje a maior facção criminosa do país. Criado dentro da cadeia e sempre liderado por um grupo de presos, o Primeiro Comando da Capital surgiu em 1993 e calcula-se que hoje tenha cerca de 130 mil representantes, dentro e fora das prisões. Um verdadeiro “sindicato do
Crime” que comanda rebeliões, fugas, resgates, assaltos, seqüestros, assassinatos e o tráfico de drogas. É na venda de maconha e cocaína que está seu maior faturamento.

Primeiro Comando da Capital mostrou sua cara durante a megarebelião de 2001

O roubo de cargas e os assaltos a bancos também engordam o “caixa” do PCC. E falamos em muito dinheiro. Em Março de 2006, um documento encontrado pela polícia, mostrava que naquele mês o faturamento da facção, em apenas um dos livros-caixas, chegou a R$ 1,2 milhão.

Embora tenha nascido em São Paulo, onde seu poder é maior, o PCC também invadiu as “fronteiras” e está presente em vários estados brasileiros, como Rio de Janeiro, Bahia, Alagoas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Minas Gerais e Rondônia.

Em Maio de 2006, em depoimento a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, em Brasília, Godofredo Bittencourt, então diretor do Departamento Estadual de Investigação Criminal (Deic) – encarregado de investigar o PCC, disse:“Houve uma época em que o governo do Estado cometeu um erro, quando pegou a liderança do PCC e os bandidos mais perigosos e os redistribuiu pelo Brasil, entre Brasília, Rio Grande do Sul e outros estados como Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Bahia... então, isso, na realidade, acabou fazendo um “acasalamento” certo? Então, na realidade o PCC é forte na capital, mas ele é apoiado em todo o Brasil, aonde vai. Virou realmente uma febre”.

O comando criminoso esbanja atrevimento. Conseguiu, ao longo destes anos, cooptar até advogados, que passaram de defensores de detentos, para aliados ao “partido”. Vários advogados já foram presos acusados de levar ordens de uma cadeia a outra a mando do PCC.

Criativo – para o lado do mal é claro – o PCC paga curso de direito para estudantes com o objetivo de que, no futuro, quando formados, eles venham a defendê-los.

Até uma página na internet o PCC chegou a ter. Foi criada por um detento que – considerado de bom comportamento – podia usar o computador da sala do diretor do presídio. Usou para fazer a página do PCC, descoberta por jornalistas e tirada do ar pela polícia.

O principal aliado do comando é o telefone celular, presente dentro de quase todas as 140 cadeias paulistas. Com eles os chefes do PCC dão suas ordens para outras cadeias e para os que estão do lado de fora. Ordens do crime. Em uma cadeia do interior de São Paulo, durante uma blitz, a polícia encontrou, na cela de um único preso, oito celulares. Era uma verdadeira cela-escritório de onde o detento comandava seus “negócios” traficando drogas entre São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

O “poder” do PCC nas cadeias é tão grande que em uma delas, a Penitenciária de Araquara, também no interior de São Paulo, montaram um verdadeiro prostíbulo. Mulheres de programa eram contratadas para prestar “serviços” aos detentos do PCC. Virou quase que um motel. A serviço dos bandidos. No Cabaré do Crime cada programa custava de R$ 100 a R$ 300, dependendo da mulher e do dinheiro do bandido. A festa na cadeia durou quase dois anos e só terminou em 2005 quando a polícia e o Ministério Público receberam denúncias e foram investigar. No inquérito, com mais de 200 páginas, estão os depoimentos de dez prostitutas ao delegado Jesus Nazaré Romão, responsável pelo caso. Todas elas confirmaram que mantiveram relações sexuais na cadeia com presos do PCC.

No ano passado, um funcionário do presídio foi preso e acusado de facilitar a vida de chefões da facção. Recebeu dinheiro para permitir, entre outras coisas, que os detentos pudessem encomendar suas refeições em um restaurante da cidade. Disse a polícia que um dos chefões pedia, constantemente, um suculento prato de camarões... Este mesmo chefão ganhou o direito de ter, em sua cela, um colchão d’água!

É assim o PCC: um grupo do crime organizado atrevido e audacioso.

­Advogados fora da lei

Até 2007, o Deic havia prendido e indiciado dez advogados, incluindo três advogadas.Dois advogados chegaram a ser condenados. Anselmo Neves Maia foi preso em 2001 e, indiciado por favorecimento ao crime foi para a cadeia onde cumpriu dois anos da pena. Foi solto em Novembro de 2003. O advogado Mário Sérgio Mugioli foi acusado de formação de quadrilha e, condenado, passou quatro anos na cadeia.

Em 2006 foi presa Maria Cristina Souza Rachado (defensora de Marcola e outros da facção) acusada de pagar propina para que o funcionário do som da Câmara dos Deputados do Congresso Nacional, cedesse a ela a gravação dos depoimentos de dois delegados do Deic à CPI do Tráfico de Armas, que acontecia em Brasília. O depoimento era sigilosos e reservado mas a advogada conseguiu a cópia, pagando ao funcionário. As conversas dos dois delegados com os deputados chegaram às mãos o Marcola e de outros líderes da facção. Era o PCC espionando o Congresso.

Os três casos estão em processo final na OAB - Ordem dos Advogados do Brasil que vai decidir se expulsa os advogados, ou seja,se eles perderão o diploma.

História do 'partido'

Foi dentro da cadeia que ele surgiu. Foi em 1993, na Casa de Custódia de Taubaté, no interior de São Paulo. Lá, a maioria dos presos eram da própria cidade de Taubaté e de outras cidades vizinhas, também do interior. De paulistas, nascidos na Capital, eram apenas oito os detentos: Isaias Moreira do Nascimento (o Esquisito); Ademar dos Santos (o Dafé); Wander Eduardo (o Cara Gorda); Antonio Carlos dos Santos (o Bicho Feio); Mizael Aparecido da Silva (o Baianão); José Epifânio (o Zé Cachorro), César Augusto Roriz (o Cesinha) e José Marcio Felício (o Geléia). Por serem os únicos não “caipiras” eram chamados pelos outros detentos de “os da Capital”.

Bons de bola, os oito começaram a se destacar no presídio por causa dos jogos de futebol. No dia 31 de Agosto de 1993, eles marcaram uma partida contra outros companheiros. Já tinham planejado matar dois desafetos durante o jogo e foi o que aconteceu. Após as mortes, eles se reuniram e começaram a discutir o que mais poderiam fazer além de jogar bola e exterminar companheiros. Foi aí que tiveram a idéia de formar um “partido” (é assim que integrantes do PCC se referem a facção), um sindicato onde seriam os representantes dos detentos de todo o Estado de São Paulo. Inicialmente uma idéia até romântica, já que planejavam ser a “voz” dos presos na defesa de seus direitos como cumprimento das leis de execuções penais, que consiste em uma série de obrigações do Estado em relação ao preso que vão desde a disponibilidade de boas instalações carcerárias até acesso à educação e tratamento médico adequados. Como já eram conhecidos como os “da Capital”, decidiram que o “partido” se chamaria Primeiro Comando da Capital – PCC.

Ali mesmo, na cela de César Augusto Roriz, o “Cesinha”, escreverem a mão o Estatuto da Facção, que tem 16 itens, entre eles o de total fidelidade ao comando, sob a pena de morte para quem não obedecer.

Durante dez anos, os dois chefões do comando foram dois de seus fundadores: o Cesinha e o Geléia (José Márcio Felício). Como a maioria dos líderes principais do PCC, eles passaram a maior parte de suas vidas nas cadeias. Cesinha foi assassinato em 13 de agosto de 2006 e estava preso desde 1989, quando tinha 22 anos. Morreu aos 39 anos. Estava condenado a 136 anos e seis meses por assaltos, homicídios e formação de quadrilha.

José Márcio Felício, o Geléia ou "G", nasceu em 13 de Janeiro de 1961. Aos 18 anos - 1979 - foi preso por roubo e foi para a Casa de Detenção, onde ganhou a matrícula de número 52.163. Nunca mais saiu da cadeia. Já passou por 33 diferentes presídios e em 2007 continuava preso. Foi condenado a 59 anos e 15 dias de prisão por assalto à mão armada, homicídios e formação de quadrilha.

Em 2003 o poder mudou de mãos. Geléia e Cesinha foram expulsos da facção que foi assumida por Marco Willians Herbas Camacho, o “Marcola”. A vice-liderança ficou com Júlio César Guedes de Moraes, o “Julinho Carambola”.

Os dois chefes do PCC, em novembro de 2007, também estavam atrás das grades havia muitos anos. Julinho Carambola foi detido a 12 anos atrás. Marcos Willian Herbas Camanho, o Marcola, nasceu em 25 de novembro de 68 e sua condenação é de 39 anos, 3 meses e 20 dias por roubos e assaltos a bancos. Foi preso pela primeira vez em 1986, quando tinha 18 anos. Fugiu da cadeia em 97, foi preso novamente e fugiu outra vez em 98, sendo recapturado em 1999. Desde então, não saiu mais da cadeia. Dois oito fundadores, sete já morreram, todos assassinados dentro da cadeia. Só Geléia continuava vivo em novembro de 2007.

O PCC, depois de fundado, viveu na clandestinidade até 1997, quando, pela primeira vez, foi mostrada sua existência, em uma reportagem da TV Bandeirantes. O Estado e as autoridades não acreditaram e negaram a existência do PCC. Assim, livres de repressão, eles cresceram dentro das cadeias e, à medida que seus integrantes iam cumprindo suas penas, eram libertados e traziam, para além grades, as idéias e ideais da facção.

Em um relatório reservado do Ministério Público sobre a facção, os promotores escreveram:“O “Primeiro Comando da Capital” teve sua origem em 1993, formado por criminosos que inicialmente se denominavam “fundadores”, cujo escopo inicial era o domínio do sistema prisional, com a prática de extorsão contra detentos e familiares, promovendo ainda, a execução de presidiários, o tráfico ilícito de entorpecentes dentro e fora dos presídios e a prática de crimes correlatos, sempre visando dar a organização criminosa o domínio do sistema prisional, inicialmente apenas no âmbito interno, expandindo-se depois e atuando fora do sistema, de molde a atingir a sociedade como um todo... Fora dos presídios dividiram tarefas e passaram a exercer agressiva atuação criminosa, hoje voltada quase completamente ao tráfico ilícito de entorpecentes”.

Megarebelião de 2001

Em 2001, eles mostraram a força promovendo uma megarebelião que paralisou 30 presídios. Foi o maior motim já realizado no mundo. A notícia ganhou destaque na mídia internacional e o PCC foi manchete nos Estados Unidos, Canadá, França, entre outros países.

E eles mesmo superariam seu recorde, promovendo em 2006 outra rebelião sincronizada. Simultaneamente se rebeleram em 74 presídios de São Paulo, cinco do Paraná e cinco em Mato Grosso do Sul. Quinhentos funcionários de presídios foram tomados como reféns.

Foi quando São Paulo caiu de joelhos perante o PCC. Durante quatro dias a cidade e seus habitantes foram acuados e assustados viram os “soldados” da facção saírem as ruas, como camicases dispostos a cumprir as ordens recebidas dos chefes. A ordem era enfrentar a polícia, o poder. E o fizeram usando fuzis, granadas e bombas. Os ataques aconteceram na Capital e em dezenas de cidades do interior e na Baixada Santista.

Ônibus foram queimados, bombas foram lançadas contra órgãos públicos (prédios das secretarias da Justiça e Administração Penitenciária, Ministério Público, fóruns, delegacias). Agências bancárias foram incendiados e depredadas, viaturas policiais foram crivadas a balas. Agentes penitenciários e policiais foram encurralados e assassinados. Alguns voltando do trabalho, outros em serviço e parte deles atacados em suas próprias casas. Foi a mais sangrenta batalha entre o crime organizado e a polícia.

Aulas foram suspensas, o comércio fechou, a indústria liberou seus funcionários mais cedo. Com Medo, os paulistanos evitaram sair de suas casas. Às cinco horas da tarde do dia 16 de maio, uma segunda feira, São Paulo parecia uma cidade fantasma: sem pessoas e sem veículos circulando. A noite foi igual: bares e restaurantes vazios ou fechados. Para os paulistanos, a ficha caiu: o PCC passou a ser um perigo real e próximo. Não era mais apenas uma facção escondida atrás das grades.

Em julho e agosto, também de 2006, voltaram a carga promovendo novos ataques, nos mesmos moldes e mais uma vez parando a maior cidade do país.
 

­São Paulo refém

Delegacia atacada

Saldo dos ataques do PCC em São Paulo

Maio de 2006 - foram 100 horas de terror

·             373 ataques na capital, interior e Baixada Santista (Litoral de São Paulo)

·             82 ônibus queimados

·             17 agências bancárias queimadas e depredadas

·             48 mortos pelo PCC (policiais civis, militares, carcereiros e três civis que acompanhavam os policiais na hora dos ataques)

·             50 feridos

·             304 bandidos mortos pela polícia

Julho e agosto de 2006

·             826 ataques na capital, interior e Baixada Santista

·             9 policiais foram assassinados pelo PCC

·             102 integrantes do PCC mortos pela polícia

·             187 suspeitos presos

A hierarquia do PCC

Marcola, o grande líder

O grande “segredo” do PCC para crescer tanto foi a fidelidade com que seus integrantes prometem e cumprem. “Uma vez do PCC sempre do PCC” costumam dizer seus aliados. É certo que parte desta “fidelidade” se dá por um motivo indiscutível: quem não for fiel morre. Mas é certo também que com o crescimento da facção e sua divulgação pela mídia, fizeram com que se transformassem numa “grife”, fazendo com que bandidos se “orgulhassem” de pertencer a facção.

O PCC sempre funcionou com um comando centralizado, com um ou dois chefes que repassam as ordens. O respeito à hierarquia é condição principal para quem é afiliado ao comando criminoso e, como numa empresa. o PCC mantém um organograma.

“Formada a quadrilha”, escreveu o Ministério Público em seu relatório, “os membros da Congregação desenvolveram sofisticada divisão de trabalho, cada qual exercendo uma função, mas sempre conscientes da finalidade global e do papel que cada um cumpre no esquema criminoso.”

O dinheiro do PCC

Dinheiro do crime serve para o crime. Em livros-caixas encontrados pela polícia, a “contabilidade” do PCC mostra que parte do “lucro” é destinado para compra de armas para abastecer as quadrilhas que agem aqui fora e, é claro, para comprar mais drogas e continuar gerindo os “negócios”.

Outra fatia do bolo serve para pagar os salários dos Torres e Pilotos recebem verba mensal para exercer a função. São salários consideráveis que vão de R$ 3 mil a R$ 10 mil, dependendo do faturamento do mês, pago pelo caixa do PCC.

Parte do dinheiro do PCC é aplicado em “funções sociais”, como a compra de cestas-básicas para familiares de presos que estão passando necessidade e o pagamento dos ônibus que são fretados para levar familiares de detentos as prisões nos finais de semana para a visita. Os integrantes do comando também tem que pagar uma mensalidade. Em 2007, o "mensalão do PCC" cobrava de seus "associados” presos: R$ 50. Para os presos em regime semi-aberto (que podem sair de dia e tem que voltar a noite para a cadeia) a mensalidade era de R$ 250. Já os que estavam em total liberdade tinham que pagar R$ 500 por mês, já que os dirigentes da facção entendem que quem está fora do sistema, em liberdade, tem condições de colaborar com um valor maior porque têm mais facilidade em conseguir dinheiro, seja trabalhando honestamente ou roubando.

Uma outra parte da grana é usada numa espécie de “programa assistencial” criado em favelas de São Paulo, onde a facção tem pontos de vendas de drogas. Batizado de “Ajuda da Correria para o Social”, o “programa” distribui leite, gás e cestas básicas a famílias que moram nestas favelas. Uma espécie de “troca”: a gente vende a droga, vocês ficam quietinhos (não denunciam a polícia) e nós damos o “troco”. As famílias interessadas em receber a “ajuda” são cadastradas pelos soldados da facção. Também faz parte do “pacote social” a compra de remédios e enxovais para bebês.

Outra forma de arrecadação de dinheiro é a rifa do PCC, que corre todos os meses. A loteria do crime é vendida nas cadeias, num sistema de rodízio (a cada mês 10 cadeias fazem a loteria). Cada número custa R$ 15 e cada detento ligado ao PCC tem que comprar pelo menos três bilhetes. Familiares também compram e, em alguns casos, revendem aqui fora. O resultado é o que der no concurso oficial da Loteria da Caixa Econômica Federal. Quem ganhar o primeiro prêmio leva um apartamento no valor médio de R$ 70 mil. O segundo prêmio é uma TV Plasma.

O PCC também faz “empréstimos” aos detentos. Quem for filiado e estiver precisando de grana é só pedir que o dinheiro está na mão sem necessidade de avalista. Mas tem que pagar se não, morre. Aliás o PCC também paga velórios e enterros de seus integrantes mortos dentro ou fora dos presídios. Dependendo da “importância” do indivíduo e de sua “contribuição” criminosa a facção quando vivo, o valor gasto com o caixão, velas, coroas e faixas pode chegar a R$ 5 mil .

O batismo do PCC

Quem quiser entrar no PCC precisa ser “apresentado” por alguém. Não basta chegar e ir entrando. Tem que ter alguém que o apresente e garanta aos demais que ele é “gente boa”, é “firmeza”. Tem que ter um “padrinho”.

Devidamente garantido em seu “caráter” o postulante a integrante da facção passa por um “batismo”. Em um copo (que pode até ser de água, mas preferencialmente com pinga) padrinho e “afilhado” jogam uma gota de sangue de cada um, conseguida através de um furinho no dedo indicador. Então, cada um bebe a metade. O “afilhado” promete que nunca irá desapontar o padrinho e jura fidelidade ao PCC para sempre. Recebe uma cópia do estatuto da facção e é o mais novo integrante do partido do crime.

Se o padrinho estiver na cadeia e o afilhado fora – ou vice-versa – a cerimônia do sangue na pinga é dispensada, restando só o juramento e o recebimento do estatuto que o afilhado jura respeitar e seguir a risca. Ele é alertado que a pena é a de morte para quem desrespeitar o estatuto. A cerimônia é realizada tanto por homens quanto por mulheres, já que o número de mulheres filiadas ao PCC cresce a cada ano. Todas as cadeias femininas de São Paulo são dominadas pelo PCC. É o PCC de Saias, como são chamadas. Também nos presídios femininos existem as figuras dos Torres e Pilotos. São subordinadas a chefia geral, ao comando, liderados por homens.

Conheça o estatuto do PCC:

Estatuto do PCC­

 

­1 - Lealdade, respeito e solidariedade acima de tudo ao “Partido”.
 
2 - A luta pela liberdade, justiça e paz.
 
3 - A união contra as injustiças e a opressão dentro da prisão.
 
4 - Contribuição daqueles que estão em liberdade, com os irmãos dentro da prisão, através de advogados, dinheiro, ajuda aos familiares e ação de resgate.
 
5 - O respeito e a solidariedade a todos os membros do “Partido”, para que não haja conflitos internos, porque aquele que causar conflito interno dentro do “Partido”, tentando dividir a irmandade, será excluído e repudiado do “Partido”.
 
6 - Jamais usar o “Partido” para resolver problemas pessoais contra pessoas de fora porque o ideal do Partido está acima de conflitos pessoais. Mas o “Partido” estará sempre leal e solidário a todos os seus integrantes para que não venham a sofrer nenhuma desigualdade ou injustiça em conflitos externos.
 
7 - Aquele que estiver em liberdade, "bem estruturado" , mas esquecer de contribuir com os irmãos que estão na cadeia, será condenado à morte, sem perdão.

8 - Os integrantes do “Partido” têm que dar bom exemplo a ser seguido e, por isso, o Partido não admite que haja: assalto, estupro e extorsão dentro do sistema.
 
9 - O “Partido” não admite mentiras, traição, inveja, cobiça, calúnia, egoísmo, interesse pessoal, mas sim, a verdade, a fidelidade, a hombridade, solidariedade ao interesse comum ao bem de todos, porque somos um por todos e todos por um.
 
10 - Todo integrante terá que respeitar a ordem e a disciplina do “Partido”. Cada um vai receber de acordo com aquilo que fez por  merecer. A opinião de todos será ouvida e respeitada, mas a decisão final será dos fundadores do “Partido”.
 
11 - O Primeiro Comando da Capital - P.C.C., fundado no ano de 1993, numa luta descomunal e incansável contra a opressão e as injustiças do Campo de Concentração anexo da Casa de Custódia de Taubaté, tem como lema absoluto "A Liberdade, a Justiça e a Paz".
 
12 - O partido não admite rivalidades internas, disputa do poder na liderança do comando, pois cada integrante do Comando sabe a função que lhe compete, de acordo com sua capacidade para exercê-la.
 
13 - Temos que permanecer unidos e organizados para evitarmos que ocorra novamente um massacre semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção, em 2 de outubro de 1992, quando 111 presos foram covardemente assassinados, massacre  esse que jamais será esquecido na consciência da sociedade brasileira. Porque nós do Comando vamos sacudir o sistema e  fazer essas autoridades mudarem a prática carcerária desumana, cheia de injustiça, opressão, torturas, massacres nas prisões.
 
14 - A prioridade do Comando no momento é pressionar o Governo do Estado a desativar aquele Campo de Concentração “anexo” à Casa de Custódia de Tratamento de Taubaté de onde surgiram a semente e as raízes do Comando, no meio de tantas lutas inglórias e tantos sofrimentos atrozes.
 
15 - Partindo do Comando Central da Capital, o QG do Estado, as diretrizes de ações organizadas e simultâneas em todos os estabelecimentos penais do Estado numa guerra sem tréguas, sem fronteiras, até a vitória final.
 
16 - O importante de tudo é que ninguém nos deterá nessa luta porque a semente do Comando se espalhou em todo o Sistema Penitenciário do Estado e conseguimos nos estruturar também do lado de fora, com muitos sacrifícios e perdas, mas nos consolidando, a nível estadual e a longo prazo, nos consolidaremos também a nível nacional. Conhecemos nossa força e a força de nossos inimigos poderosos, mas estamos preparados, unidos, e um povo unido jamais será vencido.
 
               LIBERDADE! JUSTIÇA! PAZ!

                                                                                                                         PCC

                 "UNIDOS VENCEREMOS"

As ações criminosas

A própria polícia estima que 80% dos pontos de drogas no Estado de São Paulo estejam sob o comando do PCC. É no tráfico de entorpecentes que eles ganham a maior parte do dinheiro. Mas também estão presentes em outras modalidades de crimes.

Seqüestros

A maioria deles tem as mãos do PCC que se especializou em fazer os mais longos seqüestros da história da cidade. Chegam à sofisticação de usar diferentes quadrilhas no mesmo seqüestro para evitar que muita gente saiba para onde a vítima foi levada. Assim uma quadrilha faz o levantamento da vida da vítima e a arrebata. Em seguida, entrega para outra quadrilha que leva o seqüestrado para o cativeiro e o deixa lá, aos cuidados de outra quadrilha que será a encarregada de “cuidar” da vítima enquanto o seqüestro durar. Em geral, esta terceira quadrilha muda de cativeiro para que a quadrilha que entregou a vítima não saiba mais onde ela está. O PCC até “terceirizou” o interlocutor, o homem que vai ligar para a família para pedir o resgate. Contratado ele recebe as orientações de como falar com os familiares e dicas da vida do seqüestrado, mas nem sequer o viu ou sabe onde é o cativeiro. Tudo isso para evitar que a polícia encontre o local onde está o seqüestrado e acabe com a história antes do dinheiro ser recebido. Quer dizer, se a polícia prender a primeira ou a segunda quadrilha, ou ainda, o “interlocutor” nenhum deles saberá dizer onde é o cativeiro.

Muitos empresários foram seqüestrados pelo PCC na capital e no interior.
Em 2006 o PCC fez seu primeiro seqüestro “político”. Foi durante os ataques da facção. Seqüestraram um repórter e um operador da TV Globo e exigiram, para devolver os dois profissionais, que a emissora colocasse no ar um vídeo – gravado pelos bandidos – onde o PCC explicava o que era e o porquê dos ataques. Disseram que era uma resposta ao governo do Estado que desrespeita os direitos dos presos e não aplica a lei das execuções penais nas cadeias de São Paulo. A Rede Globo, temendo pela vida de seus funcionários, colocou o vídeo no ar e os dois voltaram para casa.

Roubo de cargas

Muitas são as quadrilhas em São Paulo ligadas ao PCC especialistas em roubo de cargas. Nas estradas e nas marginais de São Paulo, armados, rendem motoristas levam o caminhão e a carga embora. Eletrodomésticos, móveis, remédios, cigarros... Tudo é carregado pelos bandidos que revendem as cargas, em geral para comerciantes na periferia de São Paulo. Parte do que conseguem no roubo vai para o caixa do PCC. Existem até quadrilhas que não são ligadas ao PCC mas usam os “serviços” deles, alugando armas para os assaltos.

Roubo a bancos

Houve um tempo em São Paulo (de 1999 a 2003) que os assaltos a bancos eram diários. As vezes de três a seis assaltos no mesmo dia. Assim o PCC fortaleceu seu caixa. Depois os bancos melhoraram o sistema de segurança, deixaram menos dinheiro em caixa e as ações da facção diminuíram, mas ainda há homens especializados só neste tipo de roubo. Parte das quadrilhas do PCC que assaltavam bancospartiram para os assaltos a carros-forte, que também virou uma febre na cidade.

No início ameaçando jogar uma bomba contra os veículos, abordavam os vigilantes dos carros forte das empresas nas ruas. Depois “descobriram” que era mais fácil levantar quem eram os ge rentes destas empresas e passaram a ir na casa deles, surpreendendo o profissional e seus familiares que são feitos reféns. Bandidos, apontando armas para a cabeça das esposas e filhos dos gerentes, ficam na residência dele, enquanto outra parte da gangue leva o funcionário até a empresa o obrigando a entrar e abrir o cofre.

Mais recentemente o PCC descobriu outro “filão”: roubar as sedes das empresas de transportes de valores e agências bancárias, cavando túneis e indo direto ao cofre. Foi assim que fizeram o maior assalto da história do país (e o segundo maior do mundo) quando cavaram um túnel de 80 metros de comprimento, que saiu no cofre do Banco Central de Fortaleza. Levaram R$ 170 milhões, o que equivale a 17 prêmios da mega-sena, acumuladas em dez milhões de reais cada uma.

Assassinatos

Nesta guerra com a polícia, no dia-a-dia de seu mundo criminoso o PCC matou e mandou matar centenas de pessoas. Um caso que deu muita repercussão foi o assassinato a sangue frio do juiz Antonio Machado Dias, o “Machadinho”, juiz corregedor de presídios de Presidente Prudente, interior de São Paulo, região onda há várias cadeias dominadas pelo PCC.

O juiz foi morto, numa emboscada, no meio da rua, quando saía de sua casa em direção ao trabalho. Em 14 de março de 2003, ele foi morto a tiros quando bandidos interceptaram seu carro e dispararam. No início a polícia negou que a facção estivesse por trás da atrocidade. Mas, um bilhete interceptado numa cadeia comandada pelo PCC, mudou o rumo das investigações. Nele estava escrito: “A caminhada é o seguinte: o Machado foi nessa...Este salve veio hoje pelo pessoal. Foi a Fia que passou..A operação que faltava foi marcada e o paciente operado...”

Três meses depois da morte do magistrado a polícia concluiu que, aqui do lado de fora, sete pessoas, a mando do PCC, participaram do plano que acabou na morte do juiz. O delegado Ruy Ferraz Fontes, que estava a frente das investigações, fez um relatório de cinco páginas sobre as conclusões, onde destacou: “ ...estas evidências autorizam concluir que a facção criminosa Primeiro Comando da Capital ou PCC, capitaneados por “Marcola” expediram a ordem para que o juiz Machado fosse assassinado...”

O governo e a polícia

Ônibus incendiado pelo PCC

No início, o governo não acreditou e isso ajudou o PCC a crescer com tranqüilidade dentro e fora das cadeias. Só em 18 de fevereiro de 2001, quando o PCC fez sua primeira mega-rebelião o governo se deu conta da existência da facção, admitindo que ela existia e ordenando a polícia paulista que identificasse seus líderes e passasse a combâte-los. Era “quase” tarde demais. A facção já era um gigante e tinha estendido seus tentáculos em quase todos os presídios e também para fora das grades.


Os delegados encarregados da missão passaram horas, dias e meses levantando tudo, investigando tudo e concluíram que a facção tinha sido a responsável por diversos crimes, como seqüestros, assaltos a bancos e carros fortes, tráfico de drogas, assassinatos. Descobriu que eles tinham um caixa central para onde ia o dinheiro arrecado e que sua estrutura funcionava como o organograma de uma empresa, com os chefões do topo e seus asseclas abaixo, em diversas funções. Bandidos ligados a facção, aqui do lado de fora, começaram a ser presos. Bandidos que estavam nas cadeias foram tirados para prestar depoimentos e explicar como a facção agia. Uma entrevista coletiva foi marcada na sede do Deic – no Carandiru, Zona Norte de São Paulo – que contou com a presença do delegado geral da Polícia Civil de São Paulo e do Governador do Estado. Á imprensa, os policiais apresentaram um organograma com os nomes dos chefões e de seus subordinados. Esclareceram os tipos de crimes praticados pela facção.

A partir daí, o PCC passou a ocupar as manchetes diariamente. Estava nas TVs, nas rádios, nos jornais e revistas. Fosse por mais um crime audacioso cometido por eles, fosse por uma nova prisão de um de seus afiliados.
O Serviço de Inteligência das Polícias – civil e militar – também funcionou no combate aos criminosos. Por meio de escutas telefônicas – autorizadas pela Justiça – ouviram e gravaram as conversas de muitos integrantes do PCC que estavam nas cadeias ou nas ruas de São Paulo. Assim descobriu e evitou que crimes fossem praticados, prendendo mais pessoas e mandando integrantes do PCC que apareciam nas conversas, para presídios de segurança máxima.

A polícia também descobriu que o PCC usava um sistema de telefonia, chamado de Centrais clandestinas do PCC – que permitia a conversa de presos, através de um PABX, entre cadeias ou com o mundo externo. Várias destas centrais foram “estouradas” pela polícia e muitas pessoas foram presas.

Infelizmente, neste meio tempo, alguns policiais mudaram de lado e se aliaram ao PCC, ajudando os criminosos. Outros, ao encontrar bandidos da facção, ao invés de prendê-los, cobravam altos valores para que eles continuassem em liberdade. Em alguns casos, além do dinheiro, ainda ficaram com a droga encontrada com os bandidos.

Mas, em sua maioria, a polícia agiu bem e freou, em boa parte, as ações do PCC. Os delegados Ruy Ferraz Fonte e Edson Santi, do Deic, foram responsáveis por muitas prisões de “importantes” figuras da facção. O delegado-chefe da Delegacia Anti-Sequestro, Wagner Giudicce também conseguiu prender dezenas de seqüestradores ligados ao PCC, diminuindo muito esta modalidade de crime em São Paulo.

Junto com o Ministério Público, através de combatentes promotores, fez um levantamento de várias contas fantasmas do PCC, seqüestrando o dinheiro delas, e conseqüentemente, esvaziando os bolsos da facção.

A Justiça também colaborou, autorizando as escutas telefônicas, agilizando ordens de prisão. Em uma decisão inédita um juiz de São Paulo decretou o seqüestro dos bens de um bandido ligado ao PCC e determinou que parte do dinheiro encontrado na contado do bandido fosse dado à família de uma das vítimas da facção, um bombeiro, morto pelo crime organizado durante a onda de ataques do PCC.

Enfim, as autoridades têm ajudado a reprimir as ações, mas até quando vai o PCC? Não é possível responder. É fato que após a ação direcionada da polícia, a organização criminosa acabou enfraquecendo. mas foi pouco e insuficiente. Os crimes ligados ao comando continuam e os afiliados a eles não páram de crescer. Nas cadeias, os celulares continuam à vontade, facilitando a vida de quem é ligado ao crime.

Além disso, é preocupante a “maquiagem” instaurada, num acordo silencioso da mídia. Algumas emissoras de TV e rádio e até alguns dos grandes jornais aconselham seus repórteres a não usar a palavra PCC, substituindo-a por “quadrilha” ou “facção criminosa que atua nos presídios”. Dizem, para justificar, que o intuito é o de não “glamourizar” o crime organizado. A questão é que, em 2007, o PCC continuava atuando e as autoridades combatendo numa velocidade, menor que o seu crescimento.